sábado, 27 de outubro de 2012

Estes são os tempos futuros que temia


Estes são os tempos futuros que temia
o teu coração que mirrou sob pedras,
que podes recear agora tão fundo,
onde não chegam as aflições nem as palavras duras?
Desceste em andamento; afinal era
tudo tão inevitável como o resto.
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se
da tua vista os bons e os maus momentos.
Tu ainda tinhas essa porta à mão.
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)
Agora já não é possível morrer ou,
pelo menos, já não chega fechar os olhos.

Manuel António Pina

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Esta mão que escreve a ardente melancolia da idade

.(a carta da paixão)
Esta mão que escreve a ardente melancolia da idade é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça, que à imagem do mundo aberta de têmpora a têmpora ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra a sua queimadura desde os seus recessos negroso nde se formam as estações até ao cimo,nas sedas que se escoam com a largura fluvial da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas e o silêncio todo branco.Os dedos.A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua alumia-se: O mel escurece dentro da veia jugular talhando a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas obscuras, essa lua tece as ramas de um sangue mais salgado e profundo. E o marfim amadurece na terra como uma constelação. O dia leva-o, a noite traz para junto da cabeça: essa raiz de osso vivo. A idade que escrevo escreve-se num braço fincado em ti, uma veia dentro da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a pont
a da figura cavada no espelho. Ou ainda a fenda na fronte por onde começa a estrela animal. Queima-te a espaços a desarrumação das imagens. E trabalha em tio suspiro do sangue curvo, um alimento violento cheio da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força desde a raiz dos braços a força manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda fechada, a límpida ferida que me atravessa desde essa tua leveza sombria como uma dança até ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum astro é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros do teu vestido. As palavras que escrevo correndo entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso, arterial. E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado. A paixão é voraz, o silêncio alimenta-sefixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te toda no cometa que te envolve as ancas como um beijo. Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem nos quartos. É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta pelo meio o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras um pouco loucas engolfadas, entre as mãos sumptuosas. A doçura mata. A luz salta às golfadas. A terra é alta. Tu és o nó de sangue que me sufoca. Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões da madeira fria. És uma faca cravada na minha vida secreta. E como estrelas duplas consanguíneas, luzimos de um para o outro nas trevas.

Herberto Helder





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Corpo de mulher, brancas colinas, brancas coxas,


Corpo de mulher, brancas colinas, brancas coxas,
te fazem parecer o mundo na tua atitude de entrega.
O meu corpo de camponês selvagem te escava
e faz saltar o filho do fundo dessa terra.


Fui só como um túnel. De mim foram-se os pássaros
e em mim a noite entrava com a sua invasão poderosa.
Para sobreviver, forjei-te como uma arma,
como uma flecha no meu arco, como uma pedra na minha funda.


Porém, chega a hora da vingança, e amo-te.
Corpo de pele e de musgo, de leite ávido e firme.
Ah os vasos do peito! Ah os olhos da ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah a tua voz lenta e triste!


Corpo da minha mulher, continuarás na tua graça.
Minha sede, minha ânsia sem limites, meu caminho
indeciso!
Escuros sulcos onde a sede eterna segue,
e segue a fadiga, e esta dor infinita.



Pablo Neruda
 

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Teus olhos, Bela Flora, soberanos

Teus olhos, Bela Flora, soberanos
e a brunida prata de teu colo
e esse, inveja do ouro, teu cabelo
e o marfim torneado de tuas mãos

não foram, não, os que, de tão ufanos
quantos uns pensamentos podem sê-lo
fizeram aos meus, sem querer-lo
tão a teus gostos vitoriosos e planos.

Tua alma foi a que venceu a minha
que aspirando com força avantajada
por esse corpo instrumento de vida

se lançou dentro em mim, onde não havia
quem resistisse ao vencedor a entrada
porque teve por glória ser vencida.

Francisco Medrano (1570-1607)

(mudado por mim do castelhano para português)






Fim do Mundo


«Um homem quis ir até ao fim do mundo e foi.
Era uma grande falésia que dava para um abismo.
- Mas onde é que fica mesmo o fim do mundo?- duvidou o homem.
- Aqui ou lá em baixo.»


Fabulário, Mário de Carvalho (Ed. & etc)


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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Um homem de olhos ligeiros descreve o céu do amor.


Um pássaro ganha altura,
Rejeita a nudez como um véu inútil,
Porque nunca teve medo da luz,
Fechado no seu voo,
Nunca sentiu a sombra.

Cascas de colheitas crestadas pelo sol.
Todas as folhas nos bosques dizem que sim,
Elas não sabem senão dizer que sim,
Todas as perguntas, todas as respostas
E o orvalho brota deste íntimo sim.

Um homem de olhos ligeiros descreve o céu do amor.
Ele reúne as maravilhas
Como folhas de um bosque,
Como os pássaros nas suas asas
E os homens quando adormecem.

Paul Eluard, in Nouveaux Poèmes (1926)



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Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
...Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andresen
Livro Sexto (1962)





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