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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

*


É apenas o começo. Só depois dói,
e se lhe dá nome.
Ás vezes chamam-lhe paixão. Que pode
acontecer da maneira mais simples:
umas gotas de chuva no cabelo.
Aproximas a mão, os dedos
desatam a arder inesperadamente,
recuas de medo. Aqueles cabelos,
as suas gotas de água são o começo,
apenas o começo. Antes
do fim terás de pegar no fogo
e fazeres do inverno
a mais ardente das estações.

José Fontinhas, ou Eugénio de Andrade

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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Os amantes sem dinheiro



Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro.
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto
que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

Eugénio de Andrade.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012



Acorda-me
um rumor de ave.

Talvez seja a tarde

a querer voar.



A levantar do chão

qualquer coisa que vive,

e é como um perdão

que não tive.



Talvez nada.

Ou só um olhar

que na tarde fechada

é ave.



Mas não pode voar.

Eugénio de Andrade, Os Amantes Sem Dinheiro ( 1947-1949), Limiar, pág 92


,

As mãos





Que tristeza tão inútil essas mãos
que nem sempre são flores
que se dêem:
abertas são apenas abandono,
fechadas são pálpebras imensas
carregadas de sono.


Eugénio de Andrade







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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Antes da Neve

Antes da Neve


As grandes searas
sacudirão a crina,
a luz de setembro
tombará dos olmos,
a espuma do vinho
extinguir-se-á
como lume breve,


só então a neve...




*

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

‎"O mundo é conduzido por loucos e ambiciosos, que só têm em mira o êxito e o lucro, estão-se nas tintas para as preocupações dos poetas, que são, como toda a gente sabe, seres da utopia, essa utopia sem a qual não há progresso."

Eugénio de Andrade

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