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domingo, 9 de setembro de 2012
Atoms interfere one at a time
Sep 7, 2012 2 comments
Physicists in the US say they are the first to directly observe single-atom interference over distances much greater than the atom's coherence length. The experiment involves using optical tweezers and a sequence of laser pulses to "bounce" the atom along two different paths that meet up after about 1 ms. The team says that if the precision of the experiment can be improved, it could provide new information about the possible existence of non-Newtonian gravity at micron distances. The researchers say the technique could also be used to study the tiny force that arises between an atom and a conducting surface, dubbed the "Casimir–Polder effect".
In the strange world of quantum mechanics, an atom can exist in a superposition of two or more trajectories until a measurement is made of its position or momentum. This property can be exploited in a matter–wave interferometer, whereby – strange though it may sound – a single atom can simultaneously follow two different paths to a detector. Forces on the atom will cause a relative phase shift between the two paths, resulting in a shift in an interference pattern created where the two paths meet.
Such experiments have been carried out before using large ensembles of atoms, effectively creating pulses of atoms that travel along each path. The atoms then create an interference pattern at the detector, which can be measured and used to infer the gravitational constant or to look for deviations from Newton's theory of gravitation. Until now, however, it has not been possible to carry out matter–wave interference by sending just single atoms through the apparatus because most pulsed-interferometer experiments rely on high atomic throughput to boost the signal at the detector and therefore lack deterministic control at the single-atom level.
Controlling single atoms
The new, single-atom matter–wave technique has been developed by L Paul Parazzoli, Aaron Hankin and Grant Biedermann at Sandia National Laboratories in New Mexico. Their technique differs from earlier experiments in that each atom begins and ends its journey in optical tweezers – laser light that is focused to a small region in which the atom is held.
The Sandi researchers used a cloud of ultracold caesium atoms that are trapped and cooled to 4.2 μK using a combination of laser light and magnetic fields. They then created optical tweezers in the gas that can hold just one atom, before firing a laser pulse at the atom to place it in a specific quantum state. The optical tweezers were then switched off, letting the atom go into freefall.
Kicked up and down
The atom was then subjected to a sequence of light pulses separated by 500 μs. The first pulse puts the atom into a superposition of two states – one that has received an upward photon kick that causes it to rise up, and one that is falling because it has received no kick. The second pulse then either knocks the rising atom downwards or kicks the falling atom upwards – the result being two trajectories that will merge at a point in time 500 μs later where a third laser pulse causes their paths to overlap. When the states merge, the tweezers are switched back on and the quantum state of the atom is measured.
The entire process is then repeated hundreds of times to determine the phase shift between the two paths and thus the gravitational force on the atom at a level of 3 × 10–27 N.
Parazzoli, Hankin and Biedermann were able to see a clear interference pattern emerge when the relative phase of the pulsing lasers was adjusted, hallmarking the self-interference phenomenon of single atoms. In their experiments, the separation between the two atomic states was as large as 3.5 μm, which is more than 200 times greater than the coherence length of the atoms used. As a result, the team claims that its is the first demonstration of "free space" single-atom interference – with free space referring to the fact that the atom is unbound, allowing for its states to separate in space.
"Really cool"
Paul Hamilton of the University of California, Berkeley, who was not involved in the work, told physicsworld.com that the Sandia researchers "demonstrate full interferometry and show a very impressive long-term stability". He also calls the experiment "a really cool textbook demonstration of single-atom interference".
Because the technique employs one atom at a time, the Sandia team believes that it could be used to make extremely localized measurements of forces very near to surfaces, such as the Casimir–Polder force that occurs between an atom and a conducting surface. Like the more familiar Casimir force, this force arises from the zero-point energy of the vacuum and has implications for the design and operation of micron- and nanometre-sized mechanical devices.
The team also claims that if the sensitivity of the technique can be improved by two orders of magnitude, it could be used to place new constraints on theories of non-Newtonian gravity at micron-length scales. Indeed, if gravity is found not to be Newtonian at such tiny distances, it could provide important clues about how the theory of gravity could be unified with the Standard Model of particle physics. "This type of interferometer has shown absolute calibration in other cases, a characteristic that would be very useful for detecting departures from the inverse square law at micron-length scales," says Parazzoli.
The research is described in a preprint on arXiv.
About the author
Hamish Johnston is editor of physicsworld.com
A palavra mais palavra do mundo: palavra
Crónica de Ferreira Fernandes
A palavra mais palavra do mundo: palavra
Como seu pai o foi de vinhos, queijos e especiarias, o francês Bernard Pivot é um merceeiro. Ele fornece palavras para fora. Melhor, palavra a palavra, no máximo em pequena frase, como o montinho de cinco tangerinas ou a dúzia de maçãs-da-índia das quitandeiras da minha terra. Tudo começou por o pai, durante a Segunda Guerra Mundial, ter sido enviado da França ocupada para a Alemanha. Mãe e irmãos abandonaram o negócio e a casa de Lyon, foram para o campo e de livros só levaram uma velha edição do Petit Larousse. Garoto, Bernard conheceu primeiro as palavras do que os livros, o dicionário do que os romances.
Adulto, tornou-se durante décadas uma das personagens mais poderosas de França, apresentando programas culturais na TV, como Apostrophes, entre 1973 e 1990, e Bouillon de Culture, nos dez anos seguintes. Da Academia Francesa e membro do júri Goncourt, continua a fazer vender livros, mas trago-o aqui por causa do seu pequeno negócio, a palavra. Acabo ler o seu Les Mots de Ma Vie (Editora Albin Michel, Paris, 2011), as palavras da minha vida. Se fosse arquiteto, Bernard Pivot seria um Álvaro Siza que se interessava sobretudo pelo tijolo.
No Bouillon de Culture, o programa acabava com Pivot a exigir um tijolo ao convidado: qual a sua palavra preferida? Um dia, Woody Allen recusou-se a responder, mesmo depois da insistência: «Não posso dizer, a minha mãe pode estar a ver o programa.» Marcello Mastroianni disse «lumière», que não é tão bela como luz, e Françoise Giroud, que dirigiu a revista L"Express, disse «tendresse», que é mais bela do que ternura. Um escritor de quem me esqueci o nome disse «concupiscência». Bernard Pivot também fundou a revista literária Lire e criou os Dicos d"Or, campeonatos de ortografia, que mobilizavam a França com ditados. Foi ouvindo-os, a esses ditados, que eu suspeitei de que a nossa cultura facilitista começou com a falta de duplas consoantes.
Apesar de ter vários livros publicados, Pivot recusou-se sempre a ser chamado escritor: «Não tenho estilo.» Explicando-se, disse não ter aquele saber entrelaçar palavras de forma original que leve, com cinco linhas lidas, à certeza: «É Proust.» Ciente de que nunca ninguém dirá «é Pivot», porque lhe falta o fio condutor único e luminoso, abandonou o colar da literatura para se dedicar à cultura de pérolas. Já académico, publicou um livrinho chamado 100 Expressões a Salvar, frases feitas de origem popular em vias de extinção. Quando tirou o curso, Bernard Pivot especializara-se em jornalismo económico, género que felizmente trocou cedo pelo literário: o livrinho tem bem mais de cem expressões. O seu mundo, a sua vida, não são números mas palavras. Daí, este Les Mots de Ma Vie, que já anunciei ser a razão desta crónica que ainda não saiu do prefácio.
De uma a uma, de A, ad hoc, a Z, zut! (bolas!), Pivot faz a autobiografia. Diz-me as tuas palavras, dir-te-ei quem és, é a sua tese. Aquele da concupiscência nem sabe como se revelou aos telespetadores... Pivot começa com ad hoc para logo a varrer - soa-lhe a comissões a constituir, coisa engravatada igual ao modus operandi dos nossos polícias e jornalistas. Pivot ouve ad hoc e traduz para Haddock, o amigo de Tintin e capitão de pragas e blasfémias. Tudo isto - saber de alguém que transforma ad hoc por «mil milhões de ectoplasmas!» - é-nos contado em meia página. E passa-se à palavra seguinte. À confissão seguinte.
Com a palavra homem, Pivot apresenta uma lista dos que conheceu, sem nomes, mas circunstância: como aquele que colava a orelha ao iPhone, onde tinha gravado o barulho do mar que na sua infância ouvia com a orelha colada a uma concha. Não se pode resumir uma vida numa palavra, diz Pivot. Mas buscando na memória, que está cheia de palavras, mesmo quem não quer ser escritor faz um belo livro.
sábado, 25 de agosto de 2012
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
O cano de uma pistola pelo cu
O cano de uma pistola pelo cu
Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.
Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.
Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.
Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.
Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspetiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.
A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o caráter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.
Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobreprotegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.
E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.
E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.
Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.
A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com ruturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas ações terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.
A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A atividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.
Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.
Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e faturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.
Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.
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14 de Agosto de 2012. "O cano de uma pistola pelo cu" e "As relações impossíveis: Economia real- Economia financeira", eram os dois títulos do texto que Juan José Millás publicava na secção de cultura do El Pais.
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