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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

O amor é o amor - e depois?!


O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a maginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - e somos um? somos dois? -
espírito e calor!

O amor é o amor - e depois?!



Alexandre O'Neill, Poesias Completas

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domingo, 9 de setembro de 2012

Nausícaa...



   

    " El mar de Homero ríe para ti,
      que te acodas desnuda en la baranda
      en busca de aire fresco, con la copa
      de néctar en la mano, mientras vienen
      y van los invitados por la fiesta
      que has dado en el palacio de tu padre.
      El aire puro inunda tus pulmones
      y el néctar se te sube a la cabeza.
      Llega entonces el hombre de tu vida
      a la terraza. Es una hermosa mezcla
      de fortaleza y sabiduría.
      Ulises es su nombre. Tú no ignoras
      que pasará de largo. Ya soñaste
      su desdén tantas veces... Pese a todo,
      el brillo de tus ojos insinúa :
      " No me canso de verte ". Y tus oídos
      reclaman  : " Háblame, dame palabras
      para vivir". Y con el sexo dices :
      " Dueño mío, haz de mí lo que te plazca ".
      Todo es entrega en ti, dulce Nausícaa.
      Pero él está aburrido de la fiesta,
      perdido en el recuerdo de su patria,
      y no se fija en ti, ni en ese cuerpo
      de diosa acribillado de mensajes
      que nunca llegarán a su destino "

         Luis Alberto de Cuenca.

Reservado ao Veneno




Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes no crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras


António José Forte (1931-1988),

.

Sobre as águas do céu




Caminho sem pés e sem sonhos
só com a respiração e a cadência
da muda passagem dos sopros
caminho como um remo que se afunda.

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
para que a elevação e a profundidade se conjuguem.
avanço sem jugo e ando longe

de caminhar sobre as águas do céu.

Daniel Faria

.

sábado, 8 de setembro de 2012

Mudam-se os Tempos

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos" 

*

Luz



Luz infindável sonho
sonho que sonha a vida
vida parêntese fluido
desordenada no tempo
na invisível energia do amor.

É por ti que atravessa o pensamento
a noite, o silêncio
o céu oblíquo.

(...aj c.)

.

Cruza la luz...

" Cruza la luz tus párpados
                y en ellos
       como una sola voz
            te reconoces,

       repetida pupila que se abre
              desde una gota azul
                    a su interior.

       Debajo del cristal
                 la luz
       es sólo un punto "

          Jaime Siles.

*

Um pouco acima



Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo

Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito

Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo

Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio de incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim

E bebe

Daniel Faria


*

POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO


POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO
Alexandre O´Neill

O medo vai ter 
tudo 
pernas 
ambulâncias 
e o luxo blindado 
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase
inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus
ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas
de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas
exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas
originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o
medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim
assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a
tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter
capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e
angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai
ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo
vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de
chegar
quase todos
a ratos
Sim
a ratos

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O Cerco





Um pássaro em queda mesmo
Quando é proporcional à pedra
Que tomba do muro nunca
Alcança a mesma coloração do musgo
– Já nem sequer falo do tempo
Em que mudam a pena

Para fazeres ideia pensa
Como perde um homem a idade
De encontrar os ninhos

Retém na memória: o homem cai. Desloca-se
O pássaro para que as estações não mudem

É dessa rotação que o muro
Pode cercar-se sem ninguém o construir. O cerco
Do voo é a pedra da idade

Para fazeres uma ideia pensa
Em engoli-la

Daniel Faria

*


" No bebo alcohol. Dos líneas
       de Ungaretti no embriagan hoy : M´ illumino
       d´immenso. Afortunado
       aquel que no enumera la hermosura,
       aquel que no describe,
       aquel que sólo dice, porque ése
       ha alcanzado el amor.

       Yo también me ilumino
       de inmensidad "

       Juan Antonio González Iglesias.

.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Três poemas de Tiago Patrício


O MEDO

O vento abeira-se das grades
cresce por debaixo das pedras
e pode ser a qualquer momento
um comboio que abranda
ou uma acidez que corrompe o tempo
Dentro da casa
a fisiologia da noite
propaga-se em vibrações
e movimentos peristálticos
na transmutação da sombra
Duas voltas à porta e à respiração
uma para o medo e a outra para o vento
para a sombra das árvores
ou para uma coisa mais terrível
como o recomeço do Inverno
***
TINHA UMA MULHER A CAMINHAR EM FRENTE QUE
desfiava páginas inteiras de uma geografia visceral
e ocultava os tecidos internos numa pálpebra
sublinhada de vermelho
Era uma mulher leve de cabeça emplumada
a inspirar a gradação no homem
e a pedir que soletrasse a cor do sexo
E ele a compreender tudo
e a retirar uma dioptria excessiva
para explicar o peso tremendo
dos olhos num alfabeto anguloso
cheio de figuras angustiadas
e polígonos manchados de sémen
Mas a mulher discorria pela sala cheia de imprudência
subia à tona e desaparecia com as mãos lúcidas
gravadas na cordilheira do homem intumescido
Separava o corpo do corpo e interrompia a tradução
quando ele se inclinava para aclarar os cabelos
E o homem gelado pela insuportável suavidade
daquelas sílabas a repousar os olhos dentro dela
a procurar o lábio no sangue ofendido
e a sucumbir como figos secos em Dezembro
***
A ABOLIÇÃO DAS FRONTEIRAS

As fronteiras eram belas
cheias de mulheres fardadas
de cores fortes e madeixas imperativas
que ansiavam por ser atravessadas
Fronteiras solenes quando cobertas de frio
no aperto da multidão
como trincheiras forradas a papel em triplicado
e semeadas de vida em trânsito
Eram fábricas de nacionalidades
com carimbos espalhados pela periferia
em linhas acidentais entre as montanhas
Eram a máxima descentralização de um estado
a exterioridade até às costuras
para conter a implosão do território
Essas mulheres a desfiar um sorriso de vidro
e a ordenar um amor impuro aos expatriados
[in Cartas de Praga, Clube Português de Artes e Ideias, 2012]
" Me decías que el viento no tenía tus ojos.
     En los altos del aire, la luz estremecida
     arde con dos diamantes que me incendian la vida :
     en tu mirada el sol ha encendido sus rojos.

     De mi vida me quedan inflamados despojos
     y porque tú me miras ha vuelto a ser mi vida :
     por tus ojos no vivo la noche derruida
     y no veo la muerte si me miro en tus ojos.

     Así el tigre acosado, así la noche en llamas
     se salvan si los mira y hacia tu luz los llamas,
     como yo me he salvado del collar de la muerte :

     en tus ojos me salvas y en tus ojos me amas,
     voy entero al imán de tus ojos al verte;
     dame, para vivir, esta luz que proclamas "

          Pere Gimferrer.

.
Comunhão  

Todos os meus mortos estavam de pé, em círculo,
eu no centro.
Nenhum tinha rosto. Eram reconhecíveis
pela expressão corporal e pelo que diziam
no silêncio de suas roupas além da moda
e de tecidos; roupas não anunciadas
nem vendidas.
Nenhum tinha rosto. O que diziam
escusava resposta,
ficava parado, suspenso no salão, objecto
denso, tranquilo.
Notei um vazio na roda.
Lentamente fui ocupá-lo.
Surgiram todos os rostos, iluminados.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), in A Falta que Ama.

.

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

Ruy Belo - Todos os Poemas, Assírio & Alvim


«Poderia ter escrito a tremer de respirares tão longe
Ter escrito com o sangue.
Também poderia ter escrito as visões
Se os olhos divididos em partes não sobrasssem
No vazio da ceguez
E luz.
Poderia ter escrito o que sei
Do futuro e de ti
E de ter visto no deserto
O silêncio, o fogo e o dilúvio.
De dormir cheio de sede e poderia
Escrever
O interior do repouso
E ser faúlha onde a morte vive
E a vida rompe.
E poderia ter escrito o meu nome no teu nome
Porque me alimento da tua boca
E na palavra me sustento em ti.»




Poesia, Daniel Faria (Ed. Assírio & Alvim)

.

O Pequeno Demiurgo



escrevo barco e uma quilha fende o vastíssimo mar
e as árvores crescem dos espaços enevoados
entre olhar e olhar movem-se
animais presos à terra com suas plumagens de ferro
e de orvalho de ouro quando a lua se eclipsa
comunicando-lhes o cio e a nómada alegria de viver

penso outono ou inverno
e o lume resinoso dos pinhais escorre sobre o rosto
sobre o corpo em tímidos gestos
eis o tempo
do capricórnio reduzido ao esconderijo tatuado
na asa mineral da ave em pleno vôo e digo nuvens
relâmpago erva águas
homem
movimento do susto oceanos sal exaustos corpos
transumantes paixões digo
e surge irrompe escorre ergue-se move-se vive
morre
mas não julguem ser trabalho simples nomear
arrumar e desordenar o mundo

para que não se apague esta trémula escrita
preciso do sonho e do pesadelo
da proximidade vertiginosa dos espelhos e
de pernoitar no fundo de mim com as mãos sujas
pelo árduo trabalho de construir os gestos exactos
da alegria que por descuido deus abandonou ao cansaço
no fim do sétimo dia

Al Berto


não penso
transcrevo conversas telefónicas ou falo
com a noite de new york
ou não falo e gravo a voz dos outros filmo
obsessivamente a morte
ou não filmo e multiplico cadeiras eléctricas
excito-me
sou o centro do mundo dos outros e
não existo
ou é a vida que me atravessa o sexo
e finjo a morte ou cintilo
como o diamante


Al Berto


.
" Debajo de esta luz está el poema.
      No lo busquéis en libros ni paisajes.
      La prosodia no existe. La armonía
      se tambalea. El eslabón se rompe.
      La palabra se pudre. La difícil
      razón está en el centro de la vida,
      debajo de la luz, junto a la sangre.
      Alas, ritmo, medida, entendimiento,
      liberación final, verdad furtiva.
      El poema está aquí. ¿ Dónde ? ¿ En qué lágrima ?
      Se nos marchó de pronto, indefinible,
      dejándonos su polen repentino "

      Francisco Garfias ( 1921-2010 )

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Funeral Blues




Funeral Blues

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Evitem que o cão ladre, com um osso saboroso,
Silenciem os pianos e ao som cavo de tambores
Tragam o caixão, deixem entrar quem vier de luto.
Que os aviões possam gemer sobre as nossas cabeças
Escrevendo no céu a mensagem Ele Está Morto.
Ponham crepes, tarjas negras no pescoço branco dos pombos
Da rua, que os sinaleiros usem luvas pretas de algodão.
Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Leste e Oeste,
A semana de trabalho e o descanso de domingo,
O meio-dia, a meia-noite, a minha fala e canção;
Eu pensava que o amor era eterno, mas estava enganado,
Agora as estrelas são inúteis: apaguem-nas todas;
Embrulhem a lua, desmantelem o sol;
Despejem o oceano e desfaçam-se da floresta
Porque nada do que vier servirá de consolo.

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